Ele: "E tu foste de todas a mais bela..."
Ela: E quem já é essa que tu fica aí chamando de mais bela, menino?
Ele: É uma poesia, Karla, relaxa.
Ela: Uhum, sei. Fica aí chamando essa outra aí de "mais bela", mas pra mim tu não fala nada, né, sua peste? Quero ver quando for comigo.
Ele (suspirando): Tá bem, tá certo. O que você quer, então? Pode escolher...
Ela: Ah, não! Não sou eu quem tem que escolher, é você!
Ele: Ok. Então, vejamos... (folheia o livro e para em uma das primeiras páginas) Preparada?
Ela: Vai na fé.
Ele: "No mundo non me sei parelha,/ mentre me for' como me vay,/ ca ja moiro por vos - e ay!/ mia senhor branca e..."
Ela (interrompendo): Opa! Tu acha que eu sou lesa, é? Que coisa é essa de "senhor"? Tá me zoando? E isso daí que tu tá falando não tem nenhum sentido. Deve estar me xingando e rindo por dentro porque não entendo.
Ele: Não, não é isso... É que é uma cantiga lírica, da Idade Média. Por isso o vocabulário é assim.
Ela: Dane-se o vocabulário, o problema aí é o "senhor"!
Ele: É que naquela época não existia ainda a palavra "senhora", Karla...
Ela: E daí, Renato? Tem que pensar que eu sou uma mulher do século XXI. Isso já tá muito antiquado, não cabe mais nos nossos padrões sociais.
Ele: Mas... Você nem terminou de ouvir o poema. Ele trata da mulher ser como uma deusa e...
Ela: Shiu. Quero outra.
Ele: Tudo bem, tudo bem... Então, quem sabe... "Quando me tratas mau e, desprezado,/
Sinto que o meu valor vês com desdém,/
Lutando contra mim, fico a teu lado/
E, inda perjuro, provo que és um bem.."
Ela: RENATO! Tu tá querendo dizer que eu te trato mal, é isso? Quem sabe a "mais bela" de todas não te trate mal, né? Que porcaria é essa?
Ele: Cara, isso é Shakespeare! Deixa eu terminar o poema pra você ver como é bonito!
Ela: Se for pra continuar falando que eu te maltrato, então, não. Caramba! Não sabe valorizar as coisas que tem!
Ele (respira bem fundo, folheando mais o livro): Esse aqui eu duvido que você vá reclamar.
Ela: Hm.
Ele: "Amei-te e por te amar/ Só a ti eu não via.../ Eras o céu e o mar,/ Eras a noite e o dia.../ Só quando te perdi/ É que eu te conheci..."
Ela: Como assim tu não me conhece, Renato?
Ele: Não é isso. É que ele fala de valorizar as pessoas depois da perda e...
Ela: Como assim depois da perda? Tu tá falando que eu tô te perdendo, é?
Ele: Claro que n-
Ela: É bem pra essa guria que tu tava recitando o poema antes, né?
Ele: Não! Essa menina nem existe!
Ela: Aham, sei.
Ele: Posso continuar?
Ela (revirando os olhos): É, né.
Ele (procurando outro poema): "Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure."
Ela: TÁ AÍ! EU SABIA!
Ele: Aí o quê?
Ela: Do amor que tive, né, Renato?
Ele: Karla, como assim?
Ela: É isso mesmo! Essa coisa toda aí de "senhor" e dizer que te maltrato, e agora isso, de "enquanto dure". Tá querendo terminar comigo, né?
Ele: Não, não tem nada a ver. É que como você não ouvia o começo dos poemas, decidi pular logo pro final.
Ela: O que tu quer dizer com isso, hein? Onde foi parar o homem que eu amei, aquele romântico e maravilhoso? Hein? Me trocou, foi isso que aconteceu.
Ele: Karla.
Ela: Que foi agora?! Vai terminar com chave de ouro, é?
Ele (se ajoelha e segura a mão dela): Essa é minha última tentativa...
(Ela o observa, ficando na expectativa)
Ele: "Eu não tenho carro, não tenho teto, e se ficar comigo é porque gosta do meu rá rá rá rá rá rá o lepo lepo"